São Paulo, Brasil
10 de Fevereiro de 2012

O que faz você parar para olhar?

Post colaborativo de Andre Gravatá *

Eu passei algumas horas andando pela cidade de São Paulo com um nariz postiço. Não um simples nariz postiço, mas sim um daqueles batatões acoplado a uns óculos de aro preto e sem lentes.

Por incrível que pareça, enquanto eu estava com o nariz, parecia que haviam ligado holofotes na minha direção, ou mesmo que a bola do jogo estava comigo, porque praticamente todo mundo que passava ficava me olhando com uma expressão ora inquisidora, ora debochada. As pessoas riam, exclamavam: “é cada figura!”, um grupinho chegou a gritar: “nooossa, velho!”, e eu seguia passo a passo, impassível, sério. Houve um cara capaz de entrar num prédio e chamar mais gente para me observar. E eu? Continuei sério, seguindo minha trilha sem itinerário.

E eu seguia meu rumo assim, sisudo, porque a ideia de andar com esse nariz pelas ruas foi para discutir a percepção das pessoas. O que faz alguém parar uma conversa ou mudar de assunto e comentar algo que está observando? No célebre poema “O bicho”, do pernambucano Manuel Bandeira, dá para perceber que um homem fuçando o lixo fazia o poeta parar para olhar. Muito infelizmente, o simples fato de eu usar um nariz postiço chamou mais atenção do que os vários mendigos largados nas ruas que percorri.

Quem me deu a ideia de usar o tal nariz foi Luis Fernando Veríssimo. No conto “O nariz”, ele narra a história de um dentista que perdeu os clientes, a família e os amigos só porque comprou uns óculos com nariz postiço e encanou de não mais parar de usá-los. As pessoas davam mais atenção para o nariz de mentira do que para todo o passado do pai-esposo-dentista – claro que é ficção, no entanto, a percepção das pessoas tem dessas coisas.

Há uma semana, estava caminhando pela Avenida Paulista (desta vez sem nariz postiço) e vi, na frente de um prédio, vários vasos enormes, meio baixos e sem plantas, que na verdade pareciam lixeiras – principalmente porque continham bastante lixo. Conversei com o cara que estava varrendo dentro dos vasos para perguntar se eles iriam receber plantas ou seriam grandes depositários de bitucas. Ele me disse que logo colocariam terra e plantas, e enquanto isso as pessoas insistiam em não parar de jogar lixo. Praticamente não havia bitucas de cigarro no chão, só nos vasos enormes, como se as pessoas não vissem a lixeira menor ao lado.

Talvez em Itu, aquela cidade do interior de São Paulo conhecida por fazer tudo em tamanho super size, as pessoas abarquem mais coisas com os olhos. Só que tamanho não é o bastante, porque ele nem é documento nem suporta a banalização. Digo isso porque os mendigos ou o lixo nas calçadas passam despercebidos sobretudo por terem se tornado comuns.

Quase todo mundo se adapta muito rápido a determinadas coisas. Bagunça, por exemplo. Se a sua casa é bagunçada, chega um momento no qual você não está mais ligando para os livros embaralhados, meias debaixo da cama, pedaços de pizza esquecidos em cima da estante… Se o hábito faz o monge, o costume faz o acomodado.

Só falei tanto da questão da percepção porque é preciso perceber o que está acontecendo para prosseguir ao próximo passo, que é agir em relação ao que se percebeu. Ainda enquanto eu estava com o nariz postiço, esperando o sinal verde para atravessar a faixa de pedestres, uma mulher ao meu lado dava a impressão de estar prestes a falar alguma coisa para mim, só que o sinal da faixa abriu e ela acabou seguindo sem dizer nada. Se eu tivesse ficado mais tempo com o nariz, entrado em lojas, lanchonetes, enfim, duvido que não aparecesse alguém para puxar assunto comigo, questionar o postiço. Quanto mais gente percebe algo, mais gente se aproxima desse algo, mais pessoas surgem para pensar em como transformá-lo.

Quem sabe o começo da solução seja colocar narizes postiços nos mendigos, nas lixeiras, nos buracos das ruas e eventualmente, por ser mais difícil, na poluição. Daí mais pessoas podem perceber o que está despercebido e seguir, por exemplo, o conselho que a escritora Becky Blanton deixou ao final da sua palestra no TED.

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andregravata* André Gravatá tem 19 anos, é estudante de jornalismo, aspirante a escritor, estagiário, blogueiro nas horas vagas e voluntário nas horas não vagas.

5 comentários to “O que faz você parar para olhar?”

  1. Kelly disse:

    “Se o hábito faz o monge, o costume faz o acomodado”.
    Eu acho necessário que as pessoas usem os narigões, não todo o resto – como diz minha mãe, se você não muda, os outros não terão porquê mudar. A reflexão precisaria vir de dentro para fora…

  2. Carol disse:

    Parabéns André!! espero que as pessoas aprendam a cuidar cada um da sua vida e respeitar não só o próximo, mas onde acaba a sua liberdade, que é exatamente onde começa a minha.
    Sucesso jornalista =)

  3. Deyse disse:

    Adorei sua experiência e como a contou. Também o video, pois acredito no que a escritora Becky falou, “a esperança sempre acha um caminho”. O que me faz parar para olhar é o breu. É quando me digo: não é possível, tem que haver alguma luz pra enxergar o que tem aqui. E quando há luz, mas não enxergo, me pergunto: onde estão os meus óculos?
    Um grande abraço, acho que vou te ler muito … rs

  4. May Midori disse:

    Concordo com o André. O que acontece com as pessoas que tudo tende ao equilibrio. Coisas boas e ruins, tendem a ficar mais normal,e perdem aquela sensação de espanto e fica tudo acomodado, por isso que narizes de postiços são tão necessarias.

    As pessos, o mundo, lideres, precisam desse chocoalão, pq as vezes é realmente dificil perceber os problemas que estao na nossa cara.

  5. CRISTIANO disse:

    Oí pessoal, tudo bem com todos voceis que fazem parti do Ted/Brasil, conheci o ted e sua história através de um revista de negócios e sei que no Brasil a rede do ted está se espalhando, sei que o objetivo do ted é encontrar profissionais que tenham idéias inovadoras para melhora a vida no planeta e uma das oportunidades do ted é recolocar profissionais no mercado através das redes de contanto do próprio ted, sendo assim logo pensei : já que são vários profissionais se comunicando para um mundo melhor e trazendo ideias inovadoras,vi a chance de tentar mi comunicar com profissionais de minha especialização que é : gestão em turismo e relatar a minha situação que pode ser a de vários profissionais. sou um profissional em turismo e hotelaria com alguns curso pela faculdade, nunca consegui um estágio e nem depois de formado, a própria instituição de ensino nunca conseguiu nada para os alunos do curso e pessoalmente passei por várias entrevistas em grandes hoteis e nunca fui chamado e fazem alguns anos que me formei, hoje estou trabalhando porque concorri a um concurso público de nível básico, que na sua primeira etapa foram mais de quinze mil candidatos para 3 mil vagas e houve uma segunda etapa entre dez candidatos para uma única vaga : hoje sou um agente de saúde da prefeitura de Fortaleza, atualmente estou estudando espanhol visando a copa e as olimpiadas e estou estudando para outro concurso na área de turismo, em outras palavras, se não fosse o concurso hoje estaria parado, pois é muito contraditório já que vivo em uma cidade turística internacionalmente considerada pelos estudiosos como ” a Maimi brasileira ” isso no passado, atualmente um caos, Fortaleza com seu enorme parque hoteleiro e moderno e em sua região metropolitana encontra-se o maior parque aguático da america latina o “Beath Parque ” e possuímos a quarta praia mais linda do planeta que é Jeriquoquora, o nosso clima 27º graus o ano todo e nossa próximidade com a Europa e o Eua, vamos debater e discutir oportunidades para os gestores em turismo ou vamos embora para a espanha onde o governo gasta 25% do seu PIB no turismo.

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