São Paulo, Brasil
10 de Fevereiro de 2012

4 de dezembro de 2009

Comentários (6)

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É conversando que a gente se entende

Post colaborativo de Rodrigo Vieira da Cunha *

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Recebi certo dia o link de uma palestra do Wade Davis, da revista National Geographic. Dizia minha amiga que enviou que era parte de um tal de TED, “um site com um monte de palestras legais”. Sem dúvidas, mas ao começar a navegar, vi que aquilo fazia parte de algo muito maior: um espaço de disseminação de ideias, de gente com pensamentos diferentes, inéditos, perturbadores, provocadores, despidos, grandiosos, simples, complexos e, essencialmente, inspiradores. Escritores, cientistas, poetas, músicos, engenheiros, esportistas, artistas, políticos etc. São doses de 18 minutos a serviço da inteligência coletiva. Sempre que acesso o TED lembro do Aleph de Jorge Luís Borges. É como se eu pudesse ver pela janela do monitor a essência do conhecimento humano.

O TED é uma fonte de inspiração que ganha força na imensa diversidade que lá orbita. Os TED Talks são falas que viram conversas. Já ouvi de gente que vê uma palestra por dia para puxar assunto, para ter o que falar, para conversar. É impossível ver um TED Talk e ficar sem comentar com alguém. Você é obrigado a falar do que viu. É como se as palestras disparassem o gatilho do preciso-contar. Não por acaso, o slogan é Ideas Worth Spreading. Ideias que merecem ser espalhadas. Via conversa, camarada… é o melhor jeito de compartilhar.

Lembrei da minha avó. Ela apartava as brigas entre os netos dizendo para a gente conversar. “Por que é conversando que a gente se entende”. Pessoas ganham prêmios Nobel da Paz porque aproximam pessoas que sozinhas não conseguem conversar. Kofi Annan, Jimmy Carter, Nelson Mandela, Mikhail Gorbachev são exemplo bem representativos.

Todos esses líderes ao apoiar o diálogo viabilizavam a convivência da diversidade. Além da questão de gênero, raça, cor, opção sexual, diversidade significa tolerância. Ouvi reclamações ao final do TEDxSP de que tinha gente ali que não deveria ter sido convidada a falar, que não tinha nada a ver, que era muito esotérico etc. O que vi foi algo diferente: uma diversidade de ideias sem fronteiras. Uma das frases que mais me chamou a atenção no TEDxSP foi de Carlos Buby, o palestrante mais improvável do sábado. Ele disse: “Posso não acreditar em uma palavra do que você diz, mas lutarei com todas minhas forças para que você expressá-la.”

Meu chefe costuma dizer: “Como são inteligentes aqueles que pensam igual a mim”, para ironicamente lembrar que é difícil aceitar ideias “contrárias”. Ora, são ideias contrárias que constroem o mundo. A contrariedade é o mote da inovação. Ninguém que está satisfeito com o que vê pensa em mudar as coisas. Inovação é fazer diferente. Qualquer consultor em criatividade, redator publicitário ou inventor sabe que precisa de referências diferentes, fora da rotina, para ter ideias novas, criativas, ou transformadoras.

E para isso, é preciso conversar. Conversar é buscar a razão onde não se encontra. Casais conversam para se acertar, empreendedores para fazer negócios, políticos para governar, crianças para simular e entender o mundo que estão conhecendo, inimigos para fazer as pazes, jornalistas para publicar histórias etc.

A inspiração para esse post veio na palestra de Kofi Annan, que esteve no Brasil na semana passada, comentando sobre um dos diálogos mais controversos dos últimos tempos. Perguntaram a ele o que achava da vinda de Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, ao Brasil. Ahmadinejad é criticado por negar o Holocausto, entre outras posições absurdas ou polêmicas. É quase um pária internacional. E tem um programa nuclear que amedronta a todos. Sob esse ponto de vista, Lula está certo. É mais racional falar com um cara como Ahmadinejad do que deixá-lo falando sozinho. Falar sozinho, a história mostra, cria gente com Adolf Hitler, Mao Tsé-Tung, Kim Jong-Il, Saddam Hussein, a lista é longa…

Annan, não à toa Prêmio Nobel da Paz, fez valer o título em uma frase. E nem precisou defender Ahmadinejad, bastou explicar: “Para buscar a paz, há de se buscar o diálogo com os inimigos. Se o diálogo for só entre os aliados, não vai resolver.” Ou seja, já dizia a minha avó: É conversando que a gente se entende. Não acredita? Pois então, veja abaixo como a falta de conversa é capaz de emburrecer as pessoas. Macacos são 99% idênticos a humanos, mas têm uma desvantagem: eles não sabem conversar.

Agora, a pergunta: se você fosse Lula, aceitaria conversar com Ahmadinejad como ele propôs, ou diria que não, que ele não poderia vir até aqui, na sua casa?

____________________________________

Rodrigo Vieira

* Rodrigo Vieira da Cunha tem 33 anos, é gaúcho, casado, surfista e pai de 2 filhos. É assessor de comunicação e reputação da presidência do Grupo Santander do Brasil. É jornalista, passou pelas redações das revistas Veja, Você S/A e pelo jornal Zero Hora. Venceu o Prêmio de Excelência Jornalística Citibank e Prêmio Fiat Allis de Jornalismo Econômico. É autor do livro Como Fazer uma Empresa Dar Certo em um País Incerto, publicado pelo Instituto Empreender Endeavor, escolhido pela revista Exame como um dos dez melhores livros de economia no mundo em 2005.

6 comentários to “É conversando que a gente se entende”

  1. Não conheço Rodrigo pessoalmente mas por essas coisas da tecnologia moderna e graças a hashtag #TEDxSP hoje até sobre futebol falamos.

    Muito boa a “pegada” do post do Rodrigo pois tangibiliza o conceito do TED para o nosso dia-a-dia político (inter)nacional às vezes tão controverso e de partidarização inevitável. E muitas às vezes dispensável.

    Eu quero um dia estar na platéia e ver um TED Talk de nosso atual Presidente pois acho que ele personifica um diálogo que o Brasil abriu não só com outras nações no mundo mas também com setores da nossa sociedade historicamente esquecidos por nós mesmos.

  2. [...] objetivo ao entrar no avião era escrever o blog para  o TEDxSP (já está no ar, acesse lá:  É conversando que a gente se entende). Gosto de ‘guardar’ momentos como uma viagem de avião para ter concentração total. [...]

  3. É verdade, Carlos, graças à tecnologia “muderna”, como diria o Sarney, já nos falamos!
    Rapaz, o Lula acho que não conseguiria falar em 18 minutos, mas seria maravilhoso mesmo. Quem sabe no próximo, hein, Helder?

    Carlos, teremos post seu por aqui?
    Abraço

  4. Deyse disse:

    Olá, Rodrigo, comecei a conhecer o Ted e vi seu post, muito inteligente!
    Se eu fosse o Lula? claro que receberia Ahmadinejad e faria como teria feito o Sergio Vieira de Melo, um dos nossos diplomatas mais brilhantes, infelizmente morto: retribuiria a visita e materia correspondência, ao vivo.
    Como Paulo Freire acredito, um dos educadores brasileiros mais brilhantes do mundo, um verdadeiro diálogo, promove o auto-conhecimento e a cooperação mutua.
    Abraços!

  5. barbara disse:

    nao é o rodrigo é a bárbara

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